segunda-feira, 7 de março de 2011

Domingo de Carnaval em Olinda

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 Bloco "A Porta", pelas ruas de Olinda.
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Após um sábado que começou e terminou no o Galo da Madrugada, o Carnaval Recifense continua em Olinda nos dias seguintes. Todos os esquemas montados para que tudo funcione super bem, falham, embora dê pro gasto. É realmente impossível conter a massa que invade a Cidade Monumento à medida que ambos vão acordando.
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Ladeira da Prefeitura, Praça do Carmo, Pátio da Igreja de São Pedro, Rua de São Bento, Quatro Cantos, Rua e Largo do Amparo e, finalmente, pracinha da Prefeitura... Tudo entupido de gente alegre e desvairada.
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O Maracatu Nação Pernambuco arrepia todos aqueles loucos ao inserir metais entre suas alfaias, xequerês e agogôs, rasgando um hino pernambucano devidamente ritmado e cantado pela multidão.
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 Bloco "Mulher na Vara", concorrente do Bloco "A Porta".
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Blocos e troças seguem naquele desfile inimaginável em qualquer país fora da América Latina: Segurucú, Escorregou Tá Dentro, Hoje a Mangueira Entra, Mulher na Vara, Só Vai Quem Chupa, A Periquita Voadora, A Bica de Teresa, Comero Mãe, Urso Também é Corno, Acorda Prá Tomar Gagau, O Cu é Cão, Mela Zorba, O Fura Couro, Urso Peidão, Zé Pretinho Furou a Véia, dentre centenas de outros com títulos na mesma linhagem.
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Faço uma referência especial à Troça Carnavalesca “ A Porta”, bloco que surgiu em 1988, quando um grupo de amigos que havia alugado uma casa na Cidade Alta improvisou um estandarte usando uma porta, percorrendo as ladeiras com uma batucada formada também de última hora.

Os foliões aderiram à ideia maluca e, atualmente, A Porta é um dos blocos mais esperados do Carnaval olindense – naturalmente, o grupo hoje tem orquestra de frevo e estandartes próprios, mas não abandonou a porta, que serve de palco para as performances mais inesperadas e absurdas.
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Durante o desfile seus seguidores carregam sobre os ombros a velha porta, na qual vão subindo garotas, uma após outra, sob gritos desesperados de “tira!”, “tira!”, “tira!”... E claro que elas tiram! Umas mais, outras menos, mas todas tiram algumas peças. E é justamente essa imprecisão quanto ao número de peças que a garota da vez vai retirar, que leva a galera à loucura, justificando, alucinógenamente, o princípio da incerteza de Heisenberg.
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Há três anos, A Porta encerrou seu desfile em frente ao meu bar olindense “Farândola”, por volta das 19 horas da terça-feira de carnaval. Estávamos todos no terraço do barzinho justamente esperando "A Porta" chegar.
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Chegaram aos gritos. Eram uns mil homens contra uma centena de garotas. Todos exaustos, suados, roucos... mas delirantes. As mulheres, por confirmarem sua condição de objeto do desejo, mensurando muito claramente o valor daquela dádiva... Os homens, por estarem agradecidos e, principalmente, envaidecidos por verem que sua armadilha, ao longo dos anos, vem surtindo o efeito esperado, justamente o de transformar todas as garotas em oferendas a eles próprios.
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Uma jovem morena de aproximadamente 22 anos subiu então na porta, sob um quase tumulto e milhares de últimos gritos de gargantas esfarrapadas. Era linda, graciosa e... muito, mas muito mesmo corajosa. Os homens pareciam feras prontas para estraçalhar a presa. Acompanhando o ritmo de uma marchinha executada pela não menos extenuada mini orquestra, a “Deusa” foi aos poucos retirando as escassas peças da sua fantasia. Uma a uma...  ritmadamente, sensualmente, dosadamente, até só lhe restar o sutiã preto e a minúscula calcinha vermelha.
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Suas gargantas esqueceram que lhes sobrava muito pouco e, enquanto 2/3 gritaram às alturas por “Sporte!”... “Sporte!”... “Sporte!”... O outro 1/3 mostrou que valeu a pena ter vindo ao carnaval pernambucano, gritando: “Mengo!”... “Mengo!”... “Mengo!”... Moviam-se como cardume de sardinha, com movimentos inesperados contudo uniformes, mas, sem deixar a porta balançar.
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Um pouco assustada com o que provocara, a jovem “Deusa” retirou - dando a impressão de que não queria retirar - o sutiã, e deixou-o cair sobre a porta, como fizera com as outras peças. A loucura aumentou, e os gritos agora eram uníssonos: “Buceta!”... “Buceta!... “Buceta!”... Pois só restava a calcinha vermelha. Até mesmo minha irmã Moema, irreverente como sempre, desconsiderou que estava ao lado do meu cunhado Enetônio e dos filhos e participou desse coro porno-etílico-carnavalesco.
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O semblante da jovem “Deusa” a partir desse novo coro já não era de medo. Um discreto sorriso apareceu puxando um pouco os cantinhos de sua boca rubra.
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Eu estaria satisfeitíssimo se tudo terminasse ali, como estava, porém, ela retirou sem muito floreio aquela sua derradeira vestimenta, e atirou-a por sobre os ombros em direção aos loucos, “pro buruçu”, enquanto rodopiava graciosamente. Nesse instante,  ao tentarem guardar cada um pra si aquele perfumado troféu, quase esqueceram que sobre a porta estava a jóia preciosa que encerrara com chave de ouro aquele carnaval de 2008.
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E ela dançou completamente nua, sem sequer o véu de "Lady Godiva", por intermináveis (mais uma vez o princípio da incerteza) 120 segundos. Balançou - fazendo inveja a Venus - ritmadamente suas ancas na direção de cada um daqueles míseros mortais, enquanto seu rosto transmitia, progressivamente, a evolução de um orgasmo imaginário. 
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Os seguranças – claro! – acercaram-se dela enquanto recompunha suas vestes já no chão e, de repente, não a vimos mais.
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Um comentário:

  1. Voltei Recife foi a saúdade que me trouce pelo braço...

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