quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Gol de Seu Toinho da Padaria


 
Basta uma bola... e tudo pode acontecer...



Abri o box do banheiro ofegante, e liguei rapidamente o chuveiro olhando ansiosamente  os furinhos que prontamente se encheram de um jato de água fria, que caiu sobre o meu rosto suado. A minha mão direita estava machucada e os meus cotovelos e joelhos arderam quando a água escorreu sobre eles. Não me lembrava há quanto anos tomara um banho tão gostoso. Permaneci parado por alguns minutos sentindo o prazer da água sobre o corpo quente e cansado, até começar, aos poucos, a passar o sabonete nas canelas doloridas e sujas de terra. 

Puxa vida! Era assim mesmo! As canelas, os braços, e às vezes até a cara, ficavam sujas de terra. Já acontecera de, ao tomar esses banhos, encontrar fiapos de grama entre os dentes.

Após quarenta anos estava voltando a um campo de futebol para disputar uma pelada com amigos, atuando como goleiro, como sempre o fizera. 

Os preparativos para essa “volta aos gramados” tiveram início ha apenas uma semana. Comprei uma bola de futebol e fui para o terraço arremessá-la na parede, para segurá-la na volta. Queria ver como estavam os reflexos e também readquirir a firmeza que tinha nas mãos, quando segurava, sem luvas e com facilidade chutes muito fortes. 

Tomei posição, e lá se foi a bola atirada por mim contra a parede. Juro! Não pensei que fosse voltar tão rápida, mal dando tempo apenas de dar-lhe um repentino tapa para que não atingisse meu rosto. Foi aí que caiu a ficha. Naquele tempo isso era o que tinha de mais simples no aquecimento que fazia para entrar em campo, jogando a bola de costas para a parede, virando-me em seguida para apanhá-la, sem nenhuma dificuldade. Percebi aí o que esses últimos quarenta anos haviam feito no goleiro de tantas tardes de domingo em Umbuzeiro.

Djalma (meu pai), Zé de Toinho (Pres. do Clube e filho de Seu Toinho da Padaria), Puan (Sporte), Rodolfo (Juvenil do Náutico), Marçal,  
João Faustino, Moizés (Centro Limoeirense),Tõe Aleixo, 
Lula, Célio (Central de Caruaru), Reinaldo (Neto de Seu Toinho),
Israel (Santa Cruz) e Vavá (Sporte)


"Comemos corda” do colega Sérgio do nosso RH e formamos um time de entusiasmados coroas que se apresentou pontualmente às seis da matina para enfrentar a equipe do pessoal terceirizado, que tinha em média um terço das nossas idades. 

Para mim foi como se estivesse sendo o primeiro chute, a primeira tentativa de segurar uma bola chutada contra meu gol... Nada dava certo... 

E o medo de cair na bola mais colocada?!!!... 

E a vergonha de levar um “peru”?!!!... 

Levei... Foi horrível!... 

A bola quicava baixinho, bem próxima à trave e, ao tentar segurá-la, coloquei-a para dentro. Mas era tudo brincadeira, e além do mais eu já estava até com algum crédito por algumas bolas que defendera.

Já aos dez anos, morando em Caruaru na casa do tio George, preferia ficar no gol em nossas peladas sobre o piso de cimento queimado. Quando jogava na linha não decepcionava, mas não produzia o bastante para atender ao meu orgulho de brasileiro bi campeão mundial. Para impressionar meus primos Jorge, Abelzinho e Gilberto, combinava com o visinho Paulo Ernesto para fazer um sinal com uma das mãos, apontando o canto onde ir chutar a bola de meia. Não tinha erro! Os chutes eram fortes, mas eu me jogava no canto certo segundos antes, e caia abraçado com a bola, para admiração de todos. 

Acho que foi a partir daí que comecei a “comer corda” prá valer, e a tomar gosto pela posição de goleiro.

Poucos anos depois era o goleiro titular do time do internato do Colégio Americano Batista em Recife e treinei entre os juvenis do Náutico, a convite do saudoso  Alexandre Borges.

Time do internado do Colégio Americano Batista de Recife.


Em seguida voltei para Umbuzeiro  e tornei-me um dos ídolos da cidade, sendo o goleiro titular de uma equipe da qual saíram muitos jogadores para as equipes profissionais do Recife, como Santa Cruz, Sporte, Central de Caruaru e Náutico. 

Nosso time era o UFC – Umbuzeiro Futebol Clube, e todos os domingos enfrentávamos equipes de outras cidades. Não cobrávamos ingressos – até porque não tinha como, pois o campo não tinha nem arquibancadas e nem muro. 

No sábado que antecedia aos jogos, desfilávamos pela feira segurando pelas pontas a bandeira do UFC, enquanto os feirantes torcedores, iam deixando cair sobre a bandeira algum dinheiro, que dava para comprar bolas, camisas e meiões.

Viajávamos com freqüência para outras cidades, às vezes em percursos que duravam até cinco horas, sentados em caibros estendidos sobre a carroceria de um caminhão descoberto.
Numa dessas viagens saímos de Umbuzeiro às três da manhã, para chegarmos em Boqueirão às oito. 

Minhas mãos congelaram do frio da madrugada. A comitiva foi distribuída para almoçar nas casas dos moradores, e depois da nossa vitória por 2 x 1, fizeram um baile em nossa homenagem. 

Quando começamos a entrar no caminhão para voltar, já com a sacola na mão, lembrei-me do frio feroz e fingi cair sobre a mochila enquanto gritava desesperado de uma dor que não sentia, levando Zé de Toinho – o presidente do Clube – a, penalizado, me convidar para viajar na boléia do caminhão. 

Só no dia seguinte, quando todos já comentavam nossa vitória em frente ao trabalho de papai, eu apareci na rua, caminhando com imensa dificuldade sob os olhares atentos e preocupados dos outros jogadores e de torcedores. De repente, deixei de representar e corri em direção a eles, para levar uma “lixa”.

Umbuzeiro teve outros bons goleiros, como Tãozinho e Fernando, ambos filhos de Seu Toinho da Padaria, nosso mais apaixonado torcedor. Personagem de muitas histórias engraçadas, Seu Toinho - além de dono da melhor padaria da cidade - era uma pessoa super querida e não perdia nem nossos treinos, sempre com seu chapéu de massa e um cachecol a proteger-lhe a garganta do frio umbuzeirense.

Numa dessas histórias, presenciada por mim, estávamos numa grande roda de torcedores, sempre em frente à Coletoria Federal onde papai trabalhava, quando foi passando Mó de João Vieira – no interior é assim mesmo: um nome como o de Etmógenes Vieira recebe um apelido, com o nome do pai como sobrenome. 

Tanto Mó quanto Missinho – seu irmão, eram baixinhos como seus pais, e Seu Toninho que não deixava passar nada, comentou, sobre os possíveis 17 anos de Mó: “Esse filho de João Vieira é pequenininho assim, mas tem cabelos no suvaco que dá prá chocar uma perua!” Enquanto todos morriam de rir, Mó, encabulado, descia a rua sem poder fazer nada.

Na outra história, comentada por todos os mais antigos, Seu Toinho da Padaria assistia a um jogo de placar apertado contra uma equipe com a qual tínhamos grande rivalidade, posicionado no seu local preferido: com o ombro escorado na trave do goleiro adversário, enquanto seu filho Tãozinho estava no outro gol. 

Faltando poucos minutos para acabar o jogo que estava 2 x 2, o centroavante de Umbuzeiro chutou uma bola rasteira que o goleiro adversário deixou passar porque ia pra fora, mas, Seu Toinho da Padaria, sob os olhares de toda a torcida umbuzeirense, deu um leve toque de direita na “pelota”, endereçando-a aos fundos da rede adversária. Só quem não viu o lance foi o nosso Juiz preferido, Seu Minervino, que imediatamente apontou para o centro do gramado, validando o gol.

Ainda bem que estávamos em Umbuzeiro e não precisamos de proteção policial para deixar o “estádio”.




Um comentário:

  1. ADOREI O TEXTO SOBRE O MEU AVô QUERIDO, VOU SELECIONAR ALGUMAS FOTOS QUE TENHO PARA LHE ENVIAR, ADMIRO VC E TODA SUA FAMÍLIA, ACHO QUE VC NÃO LEMBRA TANTO ASSIM DE MIM, POIS SOU A CAÇULA DE FERNANDO DE SEU TOINHO DA PADARIA. BEIJOS!!!

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