segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Gabiru Sapiens

À minha prima Mariza, filha de tio Abel e tia Hélen,
que é sensível a essa agonia.
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O fedor de merda seca queimando vinha numa fumaça invisível de tão tênue, levando-me, mesmo assim, a quase sufocar, e afastando o bom humor que sempre me acompanha em todas essas caminhadas às primeiras horas.

Estava me aproximando da Praça Procurador Pedro Jorge que fica entre a minha casa e a beira mar de Olinda, e ver aquela criança arrastando e amontoando sacos de lixo das lixeiras próximas para, em seguida, numa eficiente garimpagem, fazer sua primeira refeição, era meu primeiro contato diário com a nossa própria podridão. Certamente, o que lhe parecera alguns biscoitos, não passara de fezes de cachorro, o que o levou a atear fogo naquela sacola de supermercado, numa infantil vingança com endereço equivocado.

Sentado - literalmente - naquele fétido banquete, continuava abrindo e enfiando a mão em cada uma das sacolas, aproximando-as mais dos olhos para distinguir, entre aqueles restos, o que aplacaria a sua ininterrupta fome. Passando ao largo e, entre indignado e constrangido, arrisquei uma rápida e sutil olhadela em sua direção. Coincidentemente ele também levantara a vista fazendo com que nossos olhares se cruzassem. Baixei o meu rapidamente - certamente para ver onde pisava - e voltei em seguida a procura-lo com os olhos, encontrando-o colocando alguma coisa verde na boca excessivamente aberta. Tinha o olhar fixo em algum indecifrável ponto distante; um olhar que berrava gritos surdos porque não ecoavam em ponto algum; um olhar cego porque não identificava o que estava à sua frente, e não encarava sequer o que lhe manteria mais um dia vivo, para mais uma desgraçada manhã.


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4 comentários:

  1. Despertardalibélula10:11 PM

    Tua imensa sensilidade desperta e aflora textos como este. Obrigado por presentear-mos assim...
    Beijo carinhoso.

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  2. Anônimo10:44 PM

    Você não escolhe assunto antes o contrário.Você é surpreendido pelos que surgem a medida que se movimenta,ou para.Neste caso,vc foi assaltado pela ocorrência,elas te arrancaram da quietude e o obrigaram a considera-la.
    Hoje ,talvez o único fato impossível de se abordar seja a própria morte.

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  3. Anônimo5:33 PM

    a podridao, q cheira muito mal, muito mais q os sacos de lixo fedidos e revistados por uma criança eh a permissividade dos olhos entreabertos dos que disfaçam oq veem e assim continuam a caminhar pelas "belas manhas vindouras".
    Luiza Roberta.

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  4. Nadja Rolim4:46 PM

    "O ocaso é sempre comovente
    por mais pobre ou berrante que seja,
    porém mais comovente ainda
    é o fulgor desesperado e final
    que enferruja a planície
    quando o último sol mergulhou.
    É doloroso manter essa luz tensa e diversa,
    essa alucinação que impõe ao espaço
    o medo unânime da sombra
    e cessa de repente
    quando notamos sua falsidade,
    como cessam os sonhos
    quando sabemos que sonhamos".

    Jorge Luis Borges


    Nadja Rolim

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