quarta-feira, 12 de março de 2008

Justino, o Meu Sapo Cururu





Chordata anphibia anura bufonidae
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Nestes dias de verão, que por sinal já chega ao fim, tenho encontrado todas as manhãs próximo à poça d’água que se forma no terraço sob o ar condicionado, um negro cocô de sapo. É um cocô de tamanho bem proporcional ao asqueroso bicho que há anos co-habita nossa casa, medindo - o cocô - na sua extensão, algo em torno de cinco centímetros, com um calibre de qualquer coisa próxima a um centímetro e meio. É pastoso e brilhante também.

No verão do ano passado ele - o sapo - aproveitou a porta aberta durante o dia e escondeu-se atrás da do banheiro do quarto de hóspedes, obrigando-me - muito a contra-gosto - a recolhê-lo com uma caixa de papelão e levá-lo de volta ao jardim.

Durante o inverno não tenho esse problema, pois ele migra por conta própria para o jardim e se instala sob uma frondosa palmeira cercada de outras plantas menores.

A primeira idéia que me veio quando vi o tal presente matinal pela primeira vez foi sobre o diâmetro do cu do sapo. Sei que está parecendo desproposital esta referência ao cu do bichano, mas, quem foi criado em cidadezinha do interior, sabe que, quando nas manhãs de inverno algumas dezenas deles aparecem estourados pelos pneus dos carros que por aquela estrada passaram durante a noite, percebe que suas vísceras saíram incondicionalmente pela boca, o que deu origem a um ditado muito popular na zona rural quando se quer dizer que alguém ou algo é muito apertado, fazendo-se sempre a seguinte comparação: “Ta mais arrochado do que cu de sapo!”


E o pior é que o referido anfíbio é classificado cientificamente como sendo da família dos “Bufonidae”, pode?!


É dos anos no interior que vem a maioria das lembranças e histórias envolvendo esse feioso bocudo.


Uma vez surpreendido por papai quando, reproduzindo malvadeza ensinada por algum amigo, salpicava as costas de um imenso cururu posseiro do nosso quintal, levei uma tremenda bronca, tanto pelo mal que fazia ao “zoiudo”, quanto pelo perigo ao qual aquela maldade me expunha, já que, o “casca grossa”, apoiado nas patas dianteiras, levantava e apontava o cu na direção dos meus olhos, na tentativa de acertá-los com sua ácida urina.


Apesar da sua reconhecida utilidade por Darwin, não dá mesmo pra se encantar, à primeira vista, com esse barítono noturno de noites de inverno. O cara é mesmo muito feio.


Mamãe tinha pavor às suas pequeninas primas que chamamos de rãs. Nossa, como sofria! Umbuzeiro, a outrora linda cidadezinha onde morávamos – tinha praças naquela época - era um verdadeiro paraíso para toda a família dos anfíbios, sobrando sempre algumas rãs no nosso único banheiro, para desespero dela.


Mas, a pessoa que mais tinha asco, pavor, medo, repugnância desse linguarudo era o prefeito da cidade à época, seo Alcides. Contava-se que numa daquelas frias noites saiu no Jeep de Alfeu para uma viagem até uma cidade vizinha e, assim que ganhou a estrada estourou um dos pneus. Sem confiar no freio de mão, foi procurar uma pedra para escorar o carro enquanto colocava o estepe. Não deu noutra... Sob a tênue luz da crescente lua agarrou com as duas mãos um enorme sapo cururu. Em desespero completo, correu aos gritos sem parar até sua casa na cidade, onde tomou um banho com álcool e passou anos se arrepiando quando alguém lhe lembrava a história.


Procurei um nome que coubesse bem nesse meu compulsório hóspede e me veio quase que imediatamente o de Justino, um homem de vida muito simples das redondezas de Umbuzeiro. Papai o contratava sempre que precisava de alguém para um serviço sobre-humano. Era fortíssimo - apesar dos cabelos já bem grisalhos - e tinha pés singulares: do dedão ao dedinho do mesmo pé, media, aproximadamente, um palmo de adulto. Nunca calçara um sapato, como dizia calmamente. Gostava de sentar-me ao seu lado no descanso do almoço entre um turno e outro do seu trabalho, e arrancar-lhe com súplicas alguma curta história da sua vida. Na verdade não tinha muitas... ou eram todas muito parecidas. Tinha mulher, uma filha, e morava na encosta da serra, numa casinha de taipa. Era feio também... Muito feio.


Sempre que lembro ou vivo alguma situação que envolve alguém fisicamente feio, forte, e de bem com sua simples vida, lembro de Justino... Com saudades.





3 comentários:

  1. Anônimo7:07 AM

    Amor, mas que foto arretada.Pense num "zoião" rsrs
    E Kekel viu esse danado- negro cor de sapo- final de semana passado, a potência é grande...o sapinho de ve sofrer na conversa.
    Essa referência ao fanhoso do bichinho é forte...rsrsrs
    Vou indo, que o texto me fez lembrar outra, que acredito ser longaaa...

    Adorei o texto, tu é uma potência!

    Beijo apertado.

    Nadja.

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  2. Anônimo11:37 PM

    Poxa me identifiquei muito com sua historia...nos ultimos tempos sempre ao redor de minha piscina tem uns cocôs não identificados, já pensei até em montar acampamento a noite em meu jardim pla flagrar o tal cagão mas seria muito sacrifício, nos últimos dias tenho encontrado um sapo a noite proximo a piscina e ele passou a ser meu suspeito numero 1, dai resolvi fazer uma busca no google "como é cocô de sapo?" e eis que entro na sua página...mas ainda tenho dúvidas pois considero tal cocô muito grande.
    Amigo teria como você postar uma foto do cocô do Justino pra que eu possa comparar? e mais uma dúvida quando ele pega sol se esfarela?
    abraço
    Junior - Itajaí/SC

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  3. Anônimo1:43 PM

    Procurei este site porque na minha garagem deu para aparecer um sapo branco com desenhos verdes no dorso, e outro dia eu vi algum como um coco de algum bicho mas não identifiquei de qual bicho poderia ser o coco e não me lembrei do sapo. Ontem eu vi de novo o sapo então me lembrei do coco e associei a ele. por isto estou pesquisando, e queria ver uma foto para comparar com a que eu vi para poder ter certesa se era mesmo coco de sapo o que eu vi na minha garegem. Pois tenho um sobrinho de 6 anos que brinca muito na garagem e tenho medo que ele possa ser contaminado. Eu boto o sapo para fora da garagem mas ele volta.

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