segunda-feira, 2 de julho de 2007

BNCC - MÃOS QUE FALAM E CORAÇÕES QUE ESCUTAM

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Aos meus colegas do BNCC e ao meu filho caçula Rudy (Rodrigo) que, só conhecia o pai como dono de bar.



Enquanto redigia esse texto logo abaixo sobre a revoltante decisão do Juiz do Trabalho Bento Luiz Azambuja Moreira, impedindo que um simples operário de nome Joanir Pereira participasse de uma audiência trabalhista por estar calçando sandálias de tiras, muitas histórias vividas por mim em todos esses anos em que morei nas diversas regiões do Brasil, desgarrado da casa dos pais como que arrancado dela por uma inquietante necessidade de conhecer de perto tantas pessoas que sabia estarem espalhadas por aí, vieram à minha memória acompanhadas de lágrimas e sentimentos diversos. Costumo dizer que saí de casa aos dez anos para estudar e nunca mais voltei para apear dessa saudade lacerante. Depois dos estudos concluídos à minha maneira, vieram os anos de trabalho em banco federal, que me proporcionou transferências seguidas para cidades em estados distantes, com costumes diferentes dos do meu nordeste.


Ocupando interinamente a gerência da agência Recife, recebi ao final do expediente de uma quarta-feira um telefonema do diretor de crédito rural, oferecendo à agência um grande volume de recursos para aplicação imediata, pois os mesmos haviam sido solicitados por uma outra agência que não conseguira aplica-los.



A exposição agropecuária de Garanhuns no agreste pernambucano teria início dois dias depois, e como esses recursos deveriam ser aplicados junto aos mini-produtores rurais para aquisição de vacas mestiças produtoras de leite, achei que seria uma boa oportunidade para prestar um bom serviço ao banco, evitando que todo aquele montante ficasse sem aplicação após haver sido remanejado do Banco Central e recusado pela agência que originou o pedido. O diretor aceitou aliviado minha proposta que o tiraria de uma situação embaraçosa junto ao presidente do banco.
 
Quando estou motivado, reconheço que sou um “rolo compressor”.


Iniciei viagem às três horas da manhã do dia seguinte, uma quinta-feira. Passara a noite traçando planos que incluíram prioritariamente visita às emissoras de rádio das pequenas cidades por onde passaria no percurso até Garanhuns, necessariamente naquelas primeiras horas da manhã, quando a grade de programação de todas elas incluia programas voltados para o homem do campo. Esta me pareceu a única maneira de fazer com que um grande número de produtores tomasse conhecimento em apenas dois dias dos produtos que o banco estaria oferecendo durante aquela exposição. E assim fiz: visitei as rádios em Limoeiro, Surubim e Caruaru para rápidas entrevistas, anunciando o grande volume de recursos que o banco estaria disponibilizando aos mini-produtores rurais da região e quais as exigências para que eles tivessem acesso a esses recursos. Contratei, em cada uma delas, anúncios que deveriam ser lidos durante uma semana alardeando nossa presença na exposição. Uma vez em Garanhuns, instalei a agência do banco num pequeno imóvel no interior do parque de exposições, e a equipe que escolhi (os técnicos Juvino e Raimundo, o chefe de empréstimos Mário Peixoto e sua auxiliar Suely) chegou na sexta-feira à noite com os equipamentos e papéis necessários para elaboração dos contratos. Seriam operações de crédito rural que são contratadas através de Cédulas de Crédito Rural – documentos individuais para cada operação, constando além dos dados do mutuário, os do avalista e também da sua terra como limites e registros no cartório de imóveis, além da descrição dos animais que estão sendo adquiridos. Para adiantarmos os serviços de atendimento da imensa fila que durante toda a semana em que durou a exposição se formou diante da nossa agência, durante o dia colhíamos apenas os dados e as assinaturas dos produtores e seus avalistas, e anexávamos cópias dos documentos necessários, deixando para as primeiras horas da madrugada, no quarto do hotel, a confecção das cédulas.




Durante uma semana vi desfilar diante da alegria da nossa equipe algumas centenas de camponeses, homens e mulheres simples, de traços marcados pelas necessidades nordestinas, que chegavam apreensivos e saiam sorridentes com suas vacas previamente selecionadas e vacinadas pelos nossos técnicos. Conhecemos muitas histórias interessantes, de dificuldades, de solidariedade e de esperança. Uma delas me marcou profundamente.


No último dia dos nossos trabalhos na exposição, um jovem camponês de vinte e três anos, pai de três filhos, chegou acompanhado deles e da jovem esposa. Quando veio falar comigo já estava sem esperanças de ver seu pleito atendido. Por falta dos documentos de identificação não poderia se beneficiar daqueles recursos. Perguntei-lhe então porque naquela idade e já casado, não dispunha de carteira de identidade ou de outro documento que o identificasse. Respondeu-me: “Eu não passei no teste pra tirar a identidade.” E eu retruquei: - Oi, não estou falando de carteira de habilitação. Estou falando de carteira de identidade, e pra identidade não precisa se fazer teste nenhum! Foi quando ele mostrou-me suas mãos espalmadas e disse: “Eu não passei no exame do dedo (impressão digital), porque não tenho as marcas nas mãos.” Emocionado, verifiquei que ele não tinha as impressões digitais, bem como nenhuma marca nas palmas das mãos a não ser o “M” no centro de cada uma delas, e inúmeras cicatrizes. Elas não eram ásperas. Eram lisas, revestidas por uma espessa camada de pele duríssima, que se formara dia após dia com o seu árduo e incessante trabalho na roça e com o manejo dos poucos animais que possuía. Ali não sobrara espaço para impressões digitais. Emocionado, lhe disse que nenhum documento teria mais validade para mim do que suas mãos extremamente calejadas. Que faria seu financiamento apenas com os documentos de identificação que trouxera: sua certidão de nascimento e seu batistério, além de uma declaração na qual diversos de seus visinhos se prontificaram a assinar de que se tratava do próprio. Ele permaneceu pálido como chegou, olhando fixamente para mim como sem acreditar no que estava ouvindo, enquanto sua esposa abraçada aos três filhos, mantinha os olhos fixos nele esboçando um leve sorriso.


Muitas correspondências tiveram que ser trocadas entre mim e o departamento de crédito rural do banco, até que ficassem convencidos de que, mesmo não seguindo os manuais de procedimentos, eu materializara naquela operação financeira, o verdadeiro espírito do crédito rural.Realizamos mais de quatrocentas operações de financiamento de animais naquela exposição, totalizando 85% dos recursos que nos foram disponibilizados, o que rendeu à nossa equipe cartas de elogio do departamento e da diretoria de crédito rural, e a mim, particularmente, uma carta de elogio do presidente do banco.


Todas essas mais de quatrocentas operações de crédito contratadas na exposição de gado de Garanhuns foram honradas e liquidadas dentro dos seus vencimentos, sem exceção.


Hoje, quase não lembro dessa carta do presidente do banco, mas, a gratidão estampada na palidez daquele campones e no sorriso da sua esposa, jamais esquecerei.



O banco ao qual me refiro era o BNCC - Banco Nacional de Crédito Cooperativo, instituição vinculada ao Ministério da Agricultura, e que foi extinto pelo presidente Fernando Collor um dia após tomar posse. Na verdade, ele apenas atendeu a um pedido pessoal do seu tesoureiro de campanha P. C. Farias, que teve seu nome incluído na lista negra do Banco Central de pessoas ou empresas impedidas de operar em crédito rural por praticarem desonestidades. Nesse caso específico, P. C. Farias participara através da nossa agência de Maceió-AL de inúmeras operações para vendas de tratores e outros implementos agrícolas que nunca se efetivaram, cabendo a ele emitir as notas fiscais falsas e embolsar os recursos, o que motivou sua inclusão nesse cadastro, pelos nossos honrados colegas da agência Maceió.

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9 comentários:

  1. realmente rodolfo, que historia passa um filme e o que vocÊ retrata com riqueza de detalhes registrando com fotos, que pena participamos de tantos eventos e não tenho o poder das palavras. mais adorei, apesar de não está inserida neste evento pois, não fazia parte do setor de operações. um abraço, parabéns. rodolfo foi muito bom reviver estes momentos. abraços JÔ

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  2. Anônimo9:49 PM

    Engraçado...
    Nem lembro mais como cheguei a conhecer seu blog, acho que foi através do orkut..da comunidade do Farandula.
    Bem , nao importa..
    O certo, é que morando agora do outro lado do Atlântico, longe do meu porto seguro, nossa Olinda, hoje passeando por esse mar da internete, cheguei aqui novamente..
    E quase choro de emoçao a ler esse seu relato , todo seu esforço pra dar uma oportunidade pra gente humilde de nossa terra.
    Parece uma poesia, seu relato...
    Mágico...
    Só não li mais seu blog, por causa da fonte que vc usa..rs
    Nesse fundo preto, é de lascar pra ler (com o perdao da palavra)...rs
    Bem, queria dizer, que conheço vc, como qualquer mortal que teve o privilegio de conhecer o Farandula, pq vc especialmente fala com todos , nao importa a cor, o credo ou sei lá o que mais...
    És um ser humano danado de bom, de coração bom, nem precisa ser amigo, fazer parte do seu mundo..Vc passa isso aqui.
    PArabéns!
    E sorte no novo endereço, proximo ano, quem sabe nao conheço a nova casa..rs
    Um abraço
    Marta

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  3. Prezado Rodolfo,
    Foi com grande satisfação que conheci seu blog há alguns meses, entretanto, em função da correria incessamente do nosso dia a dia, não pude enviar-lhe uma msg. Hoje, nesse feriado de sexta-feira da Paixão, fui dar uma selecionada nas msgs que estavam na minha caixa, para poder eliminar muitas delas. Deparei-me com uma msg do Petronio que encaminhava o link do seu blog. Desta vez não posso deixar de me manifiestar ao ler as suas histórias aqui postadas.
    Vc, como tantos outros, nos quais me incluo, fazemos parte daqueles que vestiam a camisa do BNCC.
    Nunca me esqueço de uma viagem de férias que fiz com minha família no Nordeste, por volta de 1987, oportunidade que vc e outros colegas da Ag. Recife nos recepcionaram com churrasco e tudo mais.
    Graças a Deus agora as coisas estão chegando nos seus devidos lugares, acredito para todos nós. Eu estou em BH em exercício na ESAF.
    Um forte abraço,
    Gilinho

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  4. Gilinho, rapaz! Quantas saudades de todos vocês...
    Estou muito feliz por saber que andaste lendo alguns dos meus textos, e também pelo comentário deixado no relato de uma das muitas histórias que todos nós do BNCC temos para contar. Vou aproveitar para te passar mais um link do meu blog, postado mês passado, sobre o trapaceiro Fernando Collor e nós. Aí vai: >http://rodolfovasconcellos.blogspot.com/2009/02/sombra-do-trapaceiro.html<
    Aprendi muito com vocês de BH, com essa cidade encantadora e esse Estado cheio de História do Brasil, boa comida e boa gente.
    Com certeza ainda nos veremos.
    Grande abraço extensivo ao amigo Petrônio.

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  5. Rodolfo,
    O texto do link acima já havido lido. Muito bom.
    Segue abaixo um cordel que o Marco Antônio Martins me mostrou há quase 20 anos, logo depois do fechamento do BNCC. Tinha perdido o texto, e hoje, graças à internet capturei-o novamente.
    Não sei quem é o autor, mas ele continua atual,
    embora há outros Fernandos (FHC), deputados e senadores que mereceriam um cordel semelhante.
    Veja só:
    "O DIABO DE ALAGOAS

    ESTANDO DESCANSADO
    O GRÃO DUQUE SATANÁS
    TEVE UMA IDÉIA NOCIVA
    HORRIPILANTE E MORDAZ.

    COLOCOU NUMA CALDEIRA
    VINTE PIPAS DE AGUARDENTE
    DEZ MIL COBRAS VENENOSAS
    E UM DIABO DEMENTE.

    SUBLIMADO E CORROSIVO
    SULFATO DE ESTRICNINAS
    O COURO DE DEZ HIENAS
    DEZ QUILOS DE COCAÍNA.

    RABUJO DE DEZ RAPOSAS
    APETITE DE URUBU
    O ESPÍRITO DE CAIM
    VINTE COUROS DE TIMBU.

    TUDO ISSO COLOCADO
    NUMA CALDEIRA A FERVER
    TOMOU FORMA DE GENTE
    COMO O DIABO QUIS FAZER.

    SATANÁS ACHANDO POUCO
    LAMBUZOU MERDA DE PORCO
    COMO SE FOSSE CARAMELO

    E AO SOLTÁ-LO NO MUNDO
    BATIZOU O VAGABUNDO
    DE FERNANDO COLLOR DE MELO".

    Um abraço,
    Gilinho

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  6. Rodolfo,
    Acho que vc continua atleticano, não e mesmo, apesar de toda a distância que separam PE e MG.
    Lembra-se quando vc levava Reinaldo e Luizinho lá na agência?
    Há uma conversa que uma vez pedi autógrafo para o Reinaldo, mas não me lembro disso, aliás, eu nunca faria isso.
    Como bom cruzeirense continuo torcendo pela desgraça dessa cachorrada.

    Um abraço,
    Gilinho

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  7. Caro Gilinho.
    Pra você ver do que nossa mente é capaz pra nos proteger. Apagar esse fato do lado consciente, foi uma camaradagem muito grande do lado inconsciente da sua mente, pois, só assim, você fica sempre achando que tudo não passou de intriga de atleticano. Mas não liga não... Na verdade, era eles que deviam ter pedido autógrafos a você.
    Grande abraço.
    Rodolfo

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  8. Rodolfo,
    Brincadeiras à parte, hoje já não existe essa paixão mais por futebol. Aliás, voltei para BH em 2001 e de lá para cá fui ao Mineirão somente 2 vezes, assim mesmo para assistir jogos do Cruzeiro com times de pequeno porte.
    O que fica apenas é essa rivalidade, mas somente em torcer de forma civilizada, respeitando os amigos que torcem para o Galo.
    Houve um tempo aqui em BH, acho que vc não estava mais aqui, que tinhámos até conta em boteco no Mineirão. Enfim, tudo passa.
    Um abraço,
    Gilinho

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  9. Silvio Ribeiro11:50 AM

    Pô cara, conheci teu blog agora. Também sou um ex-BNCC, mas não deixei o torpor e a raiva me dominar. Quando fui demitido (1991) fui a luta e deletei o BNCC da minha vida. Tinha mulher e 2 filhos e não podia ficar esperando algo de quem não garante nem comida para o povo. Claro que lamento muito pelo que passamos, mas a vida segue. Legal ver esta história. Já salvei seu blog nos meus favoritos e quando tiver tempo lerei por completo. Grande abraço.
    Florianópolis-SC

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