quarta-feira, 16 de maio de 2007

Bom Dia, Vida!

O borracheiro "Borracha"
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Pin
eu
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O home educado
Não fala fiado
Não cospe no chão
Não fala palavrão.
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Ontem foi o segundo dia das obras onde será o novo endereço do Farândola. Iniciei-as assim mesmo, quase sem grana nenhuma, dependendo ainda do financiamento do meu Uno 96 para minha querida Nadja.
Passaria apenas rapidamente por lá e em seguida cumpriria dois compromissos em Recife: o primeiro foi uma reunião na Nobel, onde acertamos uma interessante parceria, e o segundo, levar meu compadre e grande mestre de obras Lourenço até a reforma, para dicas muito importantes que serão muito bem aproveitadas durante esses próximos dois meses.
O percurso entre minha casa e a obra fica mais curto se feito pela PE 15, principalmente se utilizar a “perimetral” que liga Jardim Atlântico àquela rodovia estadual. Logo no início percebi que o carro balançava um pouco, num ritmo que era mais rápido ou mais lento de acordo com a velocidade do carro. Lembrei-me que um dos pneus traseiros estava nas últimas e que, com o início das obras naquela situação de penúria, não seria o melhor momento para comprar sequer um “meia vida”, como costumo fazer, pois isso me custaria no mínimo cinqüenta reais.
Ao passar por uma pequena borracharia que fica ainda na perimetral, resolvi saber se eles não teriam algum pneu usado por um preço mais acessível, para que num outro dia, quando estivesse com mais grana eu o comprasse. Assim que fui parando o carro, um homem de grande porte, com braços e pernas muito fortes e pés imensos, largos nas extremidades como os de Justino, aproximou-se. Justino foi um morador das cercanias de Umbuzeiro-Pb, que papai costumava contratar para serviços muito pesados e insalubres como carregar grandes pedras ou limpar a fossa, e que, por nunca haver calçado um sapato ou alpercata em toda a sua vida, tinha pés imensos e com quase vinte centímetros do dedão ao mindinho.
Após ouvir um alto e sorridente “Bom dia!” perguntei, sem descer do carro e sem conseguir reproduzir aquele sorriso, se ele não teria um pneu usado, em bom estado, para um cliente sem dinheiro. Imediatamente deu meia-volta e retornou com um pneu nas mãos e disse: - “Tome! Pode levar!”
- Mas, quanto vai custar? Perguntei...
- Não vai custar nada! Você “num tá” sem dinheiro?!”
Desci do carro e, mais desconcertado do que satisfeito, expliquei que estava rodando sem pneu de suporte já há uns oito meses, e que agora o carro estava balançando muito, deixando-me assustado com a possibilidade de ter que abandona-lo em plena via pública, qualquer madrugada dessas, já que um dos traseiros estava nas últimas.
Rapidamente ele examinou os dois pneus e deu o diagnóstico: - Nenhum dos dois presta mais pra nada. Vou buscar outro.
- E trouxe outro pneu tão bom quanto o primeiro, fazendo questão de explicar que aqueles dois não eram descartáveis como os que eu estava utilizando. Eram mais antigos, e não se deformariam ao passar sobre uma pedra maior ou bater num meio-fio. Com uma rapidez impressionante colocou o macaco sob o eixo traseiro, levantou o carro e retirou os dois pneus. Levou-os para uma pequena área de trabalho em frente à porta da borracharia e, com aquelas espátulas enormes e uma grande marreta de borracha, retirou os pneus das jantes, após esvazia-los e saltar com as pernas abertas sobre eles. Passou óleo queimado nas jantes e nas bordas dos pneus, enchendo-os e calibrando-os em seguida. Com a mesma rapidez colocou-os de volta, exclamando em seguida: - “Abre o “capus” aí!”
- Ao ver que o local para o pneu de suporte estava ocupado por um em frangalhos e esvaziado, com as ligas metálicas partidas e expostas, saiu rapidamente até o interior da pequena barraca e voltou com outro pneu nas mãos. Este estava mais gasto, não era um 175-70-13 como os dois primeiros, mas dava pra rodar bem no Fiat. Rapidamente colocou-o na roda e depois em seu devido lugar, olhou pra mim e concluiu: - Pronto, chefe! Você agora tá calçado!
Eu não tive o que fazer... Peguei a única nota de cinqüenta que tinha no bolso e entreguei a ele, dizendo: “Tome! Esta é a única que tenho! Se der pra sobrar alguns trocados, melhor ainda!” Ele entrou na barraca, depois voltou correndo e disse-me: - Espere um pouco que eu vou trocar na padaria.
Voltou com dez reais para mim e ouviu-me dizer carinhosamente: “Você é um homem bom... Qual o seu nome?
- O senhor também é uma pessoa boa, doutor... Meu nome é Ricardo, mas pode me chamar de “Borracha”.
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