segunda-feira, 16 de abril de 2007

O Bebê de Rosemeire é "Cheira Cola".
























Rosemeire faz qualquer programa por r$ 1,00
para comprar o leite da sua filha.




Conheci Rosemeire numa noite de sexta-feira. Era por volta das nove e meia da noite e ela estava do outro lado da calçada do Farândola, entre os carros dos clientes, me chamando com a mão. Vestia seu modelito preferido, como o das fotos acima e ao lado: um short o mais curto possível e um bustiê qualquer. Estava mais animada do que está hoje, como mostram as fotos, e já trazia pendurada na boca a garrafinha melada de cola de sapateiro. Perguntou se eu não queria fazer algum programa; que faria qualquer um que eu preferisse, e que custaria apenas um real. Perguntei onde faríamos esse programa e ela respondeu que poderia ser no banheiro do parque próximo, no próprio parque atrás de algumas árvores, ou dentro do carro, se eu preferisse. Estava com a boca suja de resto de comida e precisava de dinheiro para o leite da sua filha de três meses de idade. Já tivera outros dois filhos antes dela, mas acabaram morrendo. Morava na rua. Sua mãe a expulsara de casa quando seus seios começaram a dar os primeiros sinais da puberdade, e seu padrasto a estuprou, na mesma cama em que estava dormindo sua mãe. Dei cinco reais pra ela comprar o leite da filha sem ter que se violentar mais naquela noite. Ficamos amigos.
Isso foi há dois anos atrás. Nesse ínterim, tenho sempre cruzado com Rosemeire nas ruas de Olinda. Por conta das minhas atividades de dono de bar, estou sempre recorrendo a algum dos depósitos de bebidas que ficam funcionando até mais tarde, para suprir o estoque em alguma eventualidade. Sempre a encontro em um deles, esperando que algum dos clientes encarem o programa que ela oferece. Me pede um real pro leite da filha e pergunta se eu não quero fazer aquele programa que prometi fazer qualquer dia desses. Uma vez levantou o bustiê e mostrou-me um dos seios, já completamente desfigurado. Rosemeire tem dezoito anos e desde os doze leva uma vida desgraçada.
Não dou esmola a crianças. Essa é uma decisão que resolvi adotar já há alguns anos, e tenho sofrido muito algumas vezes que a ponho em prática. Não consigo negar, porém, à criança que já está viciada em cola. Sei como lhe deve fazer “bem” aquele antídoto do frio, da fome, da solidão, da saudade da mãe e dos irmãos. E sei também como são discriminados por cheirarem cola, dificultando ainda mais o recebimento de esmolas.
Só na semana passada percebi que ela estava grávida. Fiquei indignado, mas... não sei nem porque! Com a vida que leva, era inevitável que isso acontecesse. Ela, como sempre, estava com a garrafinha de cola pendurada nos dentes, e ficou um pouco assustada quando, após parar o carro próximo a ela, fui logo perguntando: “Mas Meire, já engravidaste de novo?!” Perguntei se queria tirar uma foto para que eu contasse no meu blog sua história, e ela apenas perguntou: _ “Tu vai me dá alguma comida? Vai me dá cinco real?!”
Ela faz parte de uma legião de menores com suas tristes histórias de fome, maus tratos, estupros e abandono que povoam as ruas das nossas cidades. Com certeza esse tipo de problema não é de responsabilidade única do estado. Quantos de nós nos engajamos verdadeiramente nessa luta sem a preocupação de mostrarmos aos outros que somos generosos? Quantos terão a coragem de abrir mão regularmente do muito que têm em benefício de uma instituição séria destinada a proteger essas meninas e meninos? Quem protegerá esse bebê que já cheira cola desde o primeiro dia em que foi gerado?
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2 comentários:

  1. Anônimo9:49 PM

    Fazendo uma pesquisa sobre a droga cola de sapateiro, acabei me deparando com o seu artigo, que por sinal está excelente.Parabéns.

    E a pergunta fica: quem protegerá este bebê e tantos outros que são gerados no submundo das drogas?

    Por final, solicito sua permissao para utilizar o seu artigo em minhas palestras.

    Instrutor do PROERD no Paraná
    Sanches

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  2. Fico feliz que meu texto tenha lhe acrescido alguma informação. Pode utilizá-lo sim. Quanto a sua pergunta sobre o bebê, peço-lhe que acesse esse link que lhe passo e que trás o final dessa triste história.
    >http://rodolfovasconcellos.blogspot.
    com/2007/06/uma-tragdia-anunciada.html<
    Grande abraço.

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