segunda-feira, 23 de abril de 2007

CHICO BUARQUE: Rasgaram Nossos Ingressos e... Cadê o Show?!...

"Carioca" - Foto Nadja Rolim



Notamos que havia alguma coisa estranha assim que conseguimos chegar à área externa do Teatro Guararapes.
Cerca de três mil pessoas se acotovelavam na tentativa de livrarem-se da chuva torrencial que caía naquela noite de quinta-feira.
Não havia tumulto, empurra-empurra, gritaria ou coisas desse tipo, normais a todo grande espetáculo. Procuramos um cartaz grande com a foto de Chico para tirarmos uma foto em frente a ele e guardarmos como lembrança daquele show, mas não havia nenhum cartaz. Quem já viu um show sem cartaz? Só aí percebi que não vi espalhados pela cidade nenhum outdoor anunciando os quatro shows dele. Não houve chamadas na TV e muito menos no rádio. Lembrei-me, no entanto, de algumas reportagens na TV falando da rapidez com que os ingressos foram vendidos.
Quando finalmente foi autorizado o ingresso daquela massa humana ao interior do teatro, tudo se fez de forma tranqüila. Todas aquelas pessoas tinham um ar de felicidade, perceptível através de um discreto sorriso em seus rostos.
Fomos dos últimos a entrar no Guararapes. Os porteiros rasgaram nossos ingressos, impedindo-nos de guardá-los como lembrança. Enquanto descíamos os degraus que levam ao interior do teatro, ouvimos um estrondar de aplausos e suspiros... Com certeza o "carinha" acabara de entrar no palco, pois, os primeiros acordes de uma das canções do novo CD "Carioca" chegava aos ouvidos de todos, deixando-nos paralisados, encantados, enfeitiçados. Após os ensurdecedores aplausos, agradeceu: "Obrigado, Recife."
A todo instante esperávamos acontecer algo de espetacular. Entre uma música e outra, enquanto todos aplaudíamos freneticamente e uma ou outra garota gritava "lindooooo", "gostoooosooooo, as luzes se apagavam, e aí pensávamos: é agora... Vai surgir um cenário de arrombar, gelo-seco, luzes estroboscópicas, ele tirará essa calça tão comum e essa camisa que nem sequer é uma "Pólo" e aparecerá fantasiado de passista para cantar sua "Vai Passar". Mas, as luzes iam voltando aos poucos, juntamente com os acordes de uma nova canção que era entoada por quase todos aqueles submissos fãs. As luzes se apagavam mais uma vez, e aí pensávamos: agora ele vai intercalar as canções com algumas palavras sobre sua vida, sobre os problemas mundiais, sobre o Brasil, sobre o Recife, e nada... Voltavam as luzes e os novos acordes e todos cantávamos entre sorrisos aquela nova canção do seu novo CD, como se fosse A Banda, Meu Guri ou Geni.
Nadja, com sua máquina fotográfica em punho, desceu os poucos degraus que nos separavam do palco e juntou-se a uma multidão que, sentada no chão, disparava seus flashes ou filmava através dos seus celulares, até ver ficar cheia a memória da sua máquina.
Música após música, uma única palavra se fazia ouvir: “obrigado!”, e além dela, repetida tantas vezes, apenas os nomes dos sete músicos que o acompanhavam.
Chegamos ao fim das vinte e nove músicas prometidas. Desceu até a parte levemente mais baixa do palco e, caminhando de um lado ao outro, abria os braços até a altura da cintura e fazia reverências ao público. Retirou-se em seguida, para delírio de todos nós. Sabíamos que voltaria se mostrássemos o quanto o queríamos, e assim demonstramos, aos gritos e aplausos intermitentes... Os músicos começam a voltar, e logo em seguida lá vem Chico. Caminha até a frente dos músicos e abre os braços fazendo aquela mesma reverência da saída, como que dizendo: “Pronto, aqui estou!” Cantou mais quatro músicas das mais conhecidas, e fez as mesmas reverências de despedidas. Não, não nos contentamos. Já nos sentíamos íntimos demais dele para deixa-lo partir assim, sem mais nem menos... Gritávamos seu nome ao mesmo tempo em que aplaudíamos, outros urravam a todo pulmão e aquelas meninas enlouquecidas berravam: “liinnnnndddoooooooooooo”, “goooooooossstooooooosooooooo!”... E lá vem ele outra vez, com aquele andar de passos rápidos e um certo ar de felicidade. Fez a mesma reverência mostrando-se subordinado àquela platéia em transe, e arrasou com mais quatro músicas. Em seguida, partiu outra vez, após o mesmo ritual já realizado duas outras vezes. Não, agora não! Com certeza ele não viria outra vez... Era Chico, Chico Buarque de Holanda... Peguei Nadja pelo braço e começamos a subir os degraus em direção à saída do teatro quando ouvimos um estrondar de aplausos, suspiros, gritos, corre-corre para seus lugares... Era ele pela terceira vez, depois do show já terminado. Cantou não sei mais quantas canções... - eu também já estava em estado de graça – despediu-se como de costume e não mais voltou. Voltamos nós, para nossos carros, nossas casas, com uma saudade de lascar. Um sentimento de ciúmes dos que o veriam na sexta, no sábado e no domingo.
Só aí entendi que o show era Chico, só Chico. Chico com sua timidez, sua simplicidade, sua arte inigualável de dizer tudo o que queremos ouvir, mas de uma forma que jamais ousamos, porque jamais a imaginamos.
O show era ele... só ele.
Que bom que foi assim...
.
.
.
.

Um comentário:

  1. maravilhoso, quando voce se identifica com o artista a sensação realmente é esta. parabens me senti no show é imperdivel, beijos jo

    ResponderExcluir