quarta-feira, 22 de novembro de 2006

João Bafo de Onça...


Se Correr, o Bicho Pega!...





Cheguei em Caruaru com onze anos, vindo de Umbuzeiro, na Paraíba, para fazer as provas do Exame de Admissão ao Ginásio, depois de quase um dia de viagem. Aprovado no exame e passado o período das férias junto a meus pais, retornei a Caruaru para o ano letivo.

Quase tudo era novidade pra mim: as matinês nos cinemas Santa Rosa e Santino, os jogos de basquete e voleibol no Colégio Diocesano ou a imensa feira daquela linda cidade que, aos meus olhos de onze anos, tinha ainda um Monte e Tremores de Terra.

Fui morar com os tios George e Geninha. Ele, mais conhecido como o “Sargento George do Tiro de Guerra”, enlouquecia as defesas adversárias jogando como meia esquerda no time de futebol do Comércio, além de ser o temível diretor de disciplina do Colégio Diocesano. As lembranças das tortas de abacaxi preparadas por tia Geninha para lancharmos após as matinês, bem como das noites em que servia sopa de carne acompanhada de generosas porções de picles preparados por ela mesma, nunca me abandonaram.

A casa ficava na Rua 13 de Maio, no quarteirão entre as mercearias de seu Raul e a de João “Bafo de Onça". As lembranças da de seu Raul vêm com as altas portas roxas e os bombons de gasosa ali vendidos. Já a “venda” de João Bafo de Onça - assim chamado por conta do seu mau hálito – era um território quase proibido. Sempre estava zangado com algum de nós por conta desse apelido. Era um homem alto, forte, de pele clara que se enrubescia facilmente quando provocado.

Durante quase todo aquele ano a rua ficou interditada ao tráfego de veículos por estar recebendo calçamento. Aproveitamos então para formar equipes de voleibol e disputarmos torneios ali mesmo, no meio da rua. Outras atrações eram a academia de boxe de Murilo Rego, o circo criado por nós mesmos na casa dos Bouletreau, os rachas de futebol e os jogos de bola de gude na rua de trás. As lembranças da casa de tia Hélen com a coleção "Tesouros da Juventude" à nossa disposição, os primos, seus convites para almoços e os maracujás no quintal. Alí eu me aquietava... Havia paz...

Numa tarde, quando já havia sombra no lado da rua que fica na encosta do Monte, estava toda a galera sentada na calçada da casa de Paulo Ernesto, atirando pedras de baleadeira nos maracujás que apareciam sobre o portão do quintal da casa do meu primo Abelzinho. Nessas ocasiões em que a meninada estava reunida, alguém sempre inventava alguma “bafunga” para atrapalhar a vida dos demais. Bafunga era uma palavra mágica, desconhecida de mim até então. Quando pronunciada, todos tinham que reproduzir a dificuldade apresentada pelo desafiante, sob o risco de, caso não conseguisse, levar uma “lixa” de todos. 

Eudo, irmão das lindas morenas Edla e Euda, após acertar diversos tiros nos maracujás, gritou: - É bafunga! Foi um reboliço danado... Ninguém atirava tão bem quanto Eudo. Às vezes ficávamos apenas observando sua incrível pontaria. Era mesmo de impressionar... Por saber-se disparadamente melhor atirador que qualquer um de nós, ainda deu uma colher-de-chá: - Quem não acertar pelo menos um em cada cinco tiros, terá que ir até a mercearia e gritar "Bafo de Onça!" 

Quase ninguém acertou. 

Cada um criava uma maneira diferente de cumprir a pena sem ser alcançado pelo João Bafo de Onça... 

Até que chegou a minha vez, e não fiz diferente: errei também. A minha preocupação nem era ser agarrado pela fera, pois, isso não seria problema: éramos todos muito ágeis. O meu medo maior era ser flagrado por ele na hora do grito, e depois ter que enfrentar tio George, que não tolerava esse tipo de comportamento. Atravessei a rua e saí pela calçada da casa de Abelzinho até a mercearia. Com a cabeça colada à parede, fui aproximando meus olhos da primeira porta na esperança de encontrar o dito cujo de costas ou distraído, para não ver quem gritara seu apelido. Notei então que ele não estava no balcão como de costume, nem em outro canto da “venda”. “Puxa! Que sorte a minha! Eu ainda poderia tirar uma onda com a turma, gritando seu apelido de dentro da mercearia, numa demonstração de extrema coragem...Assim fiz...gritei a todo pulmão: "BAFO DE ONÇA!!!" E dei meia volta imediatamente para sair logo dali de dentro, mas, João Bafo de Onça estava atrás de mim, à porta, com os braços abertos numa imensa e inesperada armadilha na qual afundei e fiquei fortemente preso por seus imensos braços.

- Vou levar você pro Sargento George! - Gritou, justificando o apelido, mas, a minha reação de pânico, aos onze anos, foi tamanha, que ele assustou-se e me deixou ir.

Passei um bom tempo indo pra Rua Preta, só pelo lado de cá da rua.








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