quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Abre Essa Porta, Porra !!!...

Muitas pessoas esperam durante toda a vida uma ocasião
para serem boas à sua maneira. Nietzsche.
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Dedico este texto a Renatinha Soares, que sofreu um assalto a mão armada na semana passada, no qual, além de alguns bens materiais, levaram também metade da sua alma.
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Sair de casa às seis horas da manhã para uma caminhada nas areias da praia de Boa Viagem, era o primeiro passo de um dia sempre muito cheio de trabalhos, que incluía ainda as compras para o abastecimento do meu barzinho cubano El Bodegón, encontrar as melhores soluções para os problemas que ele me trazia todos os dias e, enfim, o que era mais gostoso: tomar conta dele à noite, receber os clientes e me “amostrar” um pouco, contando minhas viagens a Cuba ou preparando, eu mesmo, os mojitos que aprendi no balcão do La Bodeguita del Médio em Havana.
Essa caminhada foi incorporada ao meu dia a dia desde os idos em que convivi com a Síndrome do Pânico.
Era o momento em que ficava comigo mesmo... Questionava sobre vida futura. Futura mesmo, além da morte... Falava com alguém que julgava estar me observando e ouvindo lá do alto, expunha a ele os meus planos de um novo bar que se chamaria “Bolero” e que acabou ficando com o nome de El Paso Cabaré, e lembrava-lhe minhas traquinagens da noite anterior, sempre em tom de brincadeira, para que não me punisse com rigor.
Quando cansava, parava para realizar algumas posturas iogues aprendidas com mestres em Brasília e Belo Horizonte e me imaginar sendo observado por mim mesmo, que se afastava velozmente da Terra para muito além do sistema solar, da nossa galáxia, e de lá, ver-me, infinitamente pequenino, sentado ali, naquela praia, como se fora hóspede de um ser muito maior, como um dos milhões de seres microscópicos que trazemos dentro de nós e que, no final das contas, somos nós mesmos.
Chegava sempre muito cansado para essa caminhada por conta das poucas horas de sono, que só seriam recuperadas após o almoço.
Antes de chegar à praia, passava primeiro no El Bodegón para apanhar o restante do movimento de caixa das últimas horas da madrugada. Já ia vestido com a roupa própria para a caminhada: short de banho, camiseta e sandálias.
Um sábado, após ficar parado por alguns instantes no segundo jardim de Boa Viagem esperando uma brecha entre um carro e outro para que pudesse atravessar a avenida, estacionei embaixo de umas árvores do lado da praia, como fazia quase todos os dias àquela hora.
A carteira, com o dinheiro do bar, coloquei sob o tapete no chão do carro e, sobre ele, minhas sandálias, para despistar algum ladrão safado que por acaso aparecesse na minha ausência.
Não acreditava que alguém me escolhesse como alvo para um assalto. Seria mais fácil encarar alguém de menor porte ou aproveitar a minha ausência.
Estava com o dedo no botão acionando os vidros das portas dianteiras, quando fui atingido brutalmente na cabeça, dois dedos acima da orelha esquerda, pelo cano de uma pistola nove milímetros que era firmemente segura por uma mão que me pareceu a de um gigante.
O grito assustador veio logo em seguida para me deixar mais atordoado ainda:
- “Abre essa porta, porra!!!...”
A mão continuou do lado de dentro da janela do carro, quase espremida pelo vidro, apontando o cano da armar para o meio dos meus olhos.
Lembro bem dos meus gritos, mais altos que o dele, sempre com a mesma frase:
- Não atire! Não atire! Não atire!
Precisava sobreviver àqueles segundos e ver o que faria em seguida.
Essa sensação da morte iminente, à qual tive o desprazer de viver algumas vezes mais, todas em assaltos à mão armada, é indescritível.
O olhar esbugalhado, fixo no buraco por onde sai a bala da arma apontada e quase colada ao meu rosto, passava informações para o meu cérebro que, só encontrava uma saída: permanecer vivo alguns segundos mais, e depois negociar mais alguns...
Completamente descontrolado, trêmulo, ofegante, tentava cumprir aquela primeira ordem de abrir a porta do carro. Demorei alguns segundos para consegui-lo.
Enquanto tentava faze-lo, lembrava-me de manter ambas as mãos visíveis para o assaltante.
Enfim, consegui.
Saí do carro sem olhar o seu rosto e falei com voz trêmula:
- Pode levar, a chave está na ignição!
E me preparei para afastar-me dali o mais rapidamente possível, quando fui seguro por um braço muito forte que me puxou de volta para a porta aberta do carro e me jogou como um brinquedo sobre o banco:
- Passe pra trás!... Passe pra trás!...
Com quase cem quilos, saltei como uma pluma por sobre os bancos dianteiros do Tempra e caí no traseiro, onde era aguardado pelo revolver trinta e oito cromado e de cano longo de um negrão imenso que até então eu não notara, e que já estava bem sentado à minha espera.
- Fique “quetinho” aí!... Falou, mantendo a arma na altura da cintura para que a ação não fosse notada pelas pessoas que passavam.
Imediatamente o carro arrancou em disparada, cantando pneus, dirigido por um terceiro bandido, enquanto o que me rendera estava sentado no banco do carona.
Haviam se passado apenas uns trinta segundos desde o início do assalto. O fato de estar sendo levado por eles, significava para mim a certeza de que não seria executado, pelo menos imediatamente. Teria mais algum tempo para barganhar minha vida.
Enquanto presenciava o motorista entregar ao seu visinho uma pequena sub-metralhadora Uzi nove milímetros, fui falando para o negrão ao meu lado:
- Nessa disparada, se cruzarmos com algum carro da polícia eles vão pensar que são bandidos e podem atirar!
– Nós só andamos assim! Respondeu o crioulo, levantando a camisa e mostrando-me o colete a prova de balas.
Precisava me controlar... Talvez se eu despertasse neles um sentimento de pena por mim... Talvez isso fosse possível se eu me mostrasse frágil, doente... Então fui falando:
- Eu sou doente do coração, preciso tomar um remédio três vezes ao dia. E também sou pai de família!...
Nisso, o negrão ao meu lado retrucou imediatamente, com um leve sorriso:
- Por isso, não! Aqui todo mundo também é pai de família!.
Aquela frase, confesso, pegou-me de surpresa. Nunca havia pensado em bandido como pai de família. Alguém capaz de se meter em situações assim como meio de vida, de sustento para sua mulher e filhos... Regularmente, quero dizer...
Tentei pensar em outra coisa. Ainda estava vivo e era preciso não perder tempo.
O carro seguia em disparada pela avenida Boa Viagem em direção ao Pina.
Talvez o meu carro tivesse dado a eles a impressão que eu tinha mais dinheiro que o dono de um simples barzinho. Era um Tempra do ano anterior, vermelho metálico, quatro portas, com todos os opcionais, que eu adorava, como uma criança que adora sua bicicleta nova.
- Eu sou apenas dono de um barzinho nas Graças! Antes eu era gerente administrativo de um banco federal que Collor fechou...
– Aquele filho da puta!!! Falaram os três ao mesmo tempo.
Nisso, o que estava ao meu lado, guardou o revolver na cintura.
Nossa! Que alívio... Parecia que começávamos a nos entender.
Agora eu já levantava a vista e olhava em seus rostos.
O líder do bando, que estava no banco do carona, voltou-se para mim e perguntou, olhando nos meus olhos:
- Esse carro tem alarme?
- Não. Tem não... Respondi
Ele voltou-se mais uma vez para mim e perguntou com a mesma calma e firmeza:
- Esse carro tem alarme?
E eu: - Não. Tem não! Mas, ele está com um defeito no marcador de combustível. Acabei de encher o tanque, mas, daqui a pouco ele começará a marcar que está com pouco combustível, até o motor parar, como se a gasolina tivesse acabado mesmo. É um defeito eletrônico. O único jeito é completar o tanque antes do marcador mostrar vazio.
- Ajude a gente, que a gente ajuda você. Alertou o chefe.
Nisso, senti-me agradecido. Achei que aquelas palavras eram uma prova de que não me matariam, e fui logo retribuindo:
- Minha carteira está embaixo do tapete em frente ao banco do motorista. Tem dinheiro nela. Todo o movimento do meu bar ontem, sexta-feira, está nela. Pode pegar...
O líder voltou-se mais uma vez para mim, e perguntou:
- Está aonde o dinheiro?
- Na minha carteira, embaixo do tapete do motorista. Respondi.
Sem tirar os olhos de mim, ele foi com sua mão direita tateando até encontrar minha carteira e me devolver enquanto dizia:
- Não queremos nada de você. Apenas seu carro para um serviço. Assim que terminarmos vamos devolver ele pra você. Vamos deixar quinhentos reais também pra você aqui dentro da capa do extintor de incêndio.
Pensei em dizer-lhe para comprar um presente para sua mãe, já que no dia seguinte seria “Dia das Mães” , mas, tive medo de ser mau interpretado e preferi falar:
- Não precisa não! Compre alguma coisa para alguém que precise...
Nesse instante já estávamos passando embaixo do viaduto Joana Bezerra, e o motorista tomou o caminho da avenida Sul, passando pelo quartel que fica entre o Cabanga e aquela avenida.
No sinal da Avenida Sul, o bandido que dirigia meu carro, parou atrás de outros aguardando o sinal abrir, e então levou um esporro do líder:
- Tá feito menino? Vai ficar parado aqui pra todo mundo ver a cara da gente?
O motorista deu uma marcha ré e arrancou cantando pneus pela avenida em direção ao centro da cidade.
- Vocês vão se meter em engarrafamento indo por aqui. Falei, demonstrando boa vontade.
Mas, o roteiro escolhido préviamente por eles, nos levava direto para a Rua Imperial. Não foi preciso, em momento algum, o chefe orientar o motorista quanto ao percurso.
Quando chegamos na esquina dessa rua, mandou parar o carro, apanhou minhas sandálias que estavam sob os pés do motorista e me entregou-as, falando:
- Pronto! Aqui você desce...
Putz! Como fiquei agradecido...
- Felicidades pra vocês. Eu não vou nem prestar queixa.
- Tem que prestar sim! Se não você não vai encontrar seu carro! Precisamos de cinqüenta minutos... Depois disso você pode prestar queixa... Falou o Chefe.
Com minha carteira e minhas sandálias nas mãos, fiquei ali, em pé, parado, às seis e meia da manhã, sem acreditar que estava vivo.
Liguei para um colega do banco que estava com outro carro meu, para que viesse me apanhar, e fomos para o local do assalto, na beira mar.
Lá, ficamos sabendo que o flanelinha, um senhor já de idade, havia sido agredido com uma coronhada e que, duas moças que faziam suas caminhadas, desmaiaram ao ver a ação dos bandidos.
Ao chegar na Polícia Civil, dei de cara com um cartaz com uma dezena de fotos de bandidos sob o título: Procurados – Assaltantes de Bancos.
Lá estavam o líder – Jorge Grampão – o negrão que ficara ao meu lado – João Madeira – e o motorista era Claudionor - todos ex-PMs, expulsos da corporação.
Naquela madrugada, por volta das duas e meia fui acordado por um telefonema da Polícia Militar avisando que o meu carro fora encontrado na Praça da Bandeira, em frente à Ilha do Retiro.
Chegando lá, encontrei, além da guarnição da PM, o vigia do prédio em frente ao local onde estava o carro, que veio logo me dizendo:
- O dono dessa banca de revistas me pediu para tomar conta desse carro que três rapazes deixaram com ele às nove horas da manhã dizendo que voltariam, e até as dezoito horas – hora dele fechar a banca – ainda não haviam aparecido.
Embora dentro do carro tivesse máquina fotográfica e alguns outros poucos pertences de algum valor, todos estavam lá, nada havia sido roubado.
Prestei queixa do roubo do carro, mas, no documento não identifiquei os bandidos. Apenas apontei pro Delegado quem eram eles no cartaz.
Já era o início de um processo que durou alguns meses, onde fiquei extremamente agradecido a eles por não haverem tirado minha vida.
Nas minhas preces – naquele tempo eu ainda as fazia – pedia sempre para que fossem protegidos em seus assaltos... Para que não houvesse necessidade de ferir alguém e que também não fossem feridos.
Passei um mês sem poder contar essa história sem chorar, e um ano tendo sobressaltos com qualquer movimento brusco à minha volta.
Dois anos depois, ao ter outro Tempra tomado de assalto por dois inexperientes moleques, fiquei sabendo pela Polícia Militar que João Madeira havia sido morto por PMs no ano anterior.
Jorge Grampão, que havia desaparecido daqui de Pernambuco, foi preso em Minas Gerais em 2002 e encontra-se preso na Penitenciária de Igaraçu por diversos assaltos a bancos em todo o país.
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8 comentários:

  1. Que bela homenagem... Um beijo querido amigo! Renata.

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  2. correiobloggxorkut6:42 PM

    Renata Soares: Lindo texto... Pena que a inspiração tenha vindo de algo tão assustador...
    Um beijo!

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  3. Muito bom... Minha curiosidade sagaz me fez ler a respeito de Jorge Grampão, encontrei várias reportagens em diversos jornais on-line. Pense num elemento... Ladrão de banco, carro forte e até de dono de Bodega... hehehehehhehehe Abraço meu Velho.

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  4. correiobloggxorkut10:54 AM

    Pense que criei esse Blog com um único objetivo, poder comentar os brilhantes textos de meus amigos, em especial de meu amigo Rodolfo Vasconcelos... O cidadão tem um dom especial em descrever suas histórias, todas verídicas, que o mesmo teve o prazer de viver, e hoje sinto que deve ter grande alegria em retratá-la para todos os seus amigos... Vou ver se tomo vergonha na cara e escrevo alguma coisa substancial aqui nesse meu espaço.
    POSTED BY IGUINHO AT 12:45 PM 0 COMMENTS

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  5. ANÔNIMO12:42 AM

    JOÃO MADEIRA NÃO MORREU! Ele está vivo sim!

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  6. Grande Jorge Grampao
    Ele e do meu Bairro ,Madeira tambem
    100% Bairro do Pina Porraaaaa

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  7. Grande Jorge Grampao
    Ele e do meu Bairro ,Madeira tambem
    100% Bairro do Pina Porraaaaa

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  8. JOÃO MADEIRA, pra quem não sabe é intérprete, do SAMBA, o negão canta muito, sempre avisto ele, porém o bairro,não vou poder divulgar, torcedor do SANTINHA, como eu.abração a tds.

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